Um conceito muito comum na literatura sobre desenvolvimento tecnológico é o de tecnologia que "pula etapa" (leapfrog technology). Seriam aquelas invenções que permitem se chegar a um tipo de serviço que só seria possível anteriormente com grande investimento prévio em infraestrutura.
Dois exemplos são o telefone celular e a internet 3G que permitiram países com uma cobertura muito pequena de cabeamento telefônico, como Brasil e China realizar uma rápida expansão no acesso aos serviços de telefonia e internet. Antes disso o próprio automóvel permitiu a expansão urbana em regiões do mundo que estavam longe de ter feito seu "dever de casa" em infraestrutura de transporte.
Há varias consequências para as nações que adotam maciçamente essas tecnologias que são interessantes. Duas, no entanto para mim são claras: a primeira é que a medida em que o processo escalona os problemas sistêmicos advindos dessa adoção começam a crescer muito rápido e a pressão por estruturar de forma mais tradicional as áreas mais consolidadas aumenta.
Isso quer dizer o seguinte: até se pode fazer toda a estrutura de telefonia sem fio, mas eventualmente a infraestrutura de base tem que começar a migrar para troncos com maior capacidade, e isso faz com que as empresas tenham que começar a colocar troncos de fibra nessas regiões, pro exemplo. A mesma coisa ocorre com automóveis: soluções de transporte coletivo e de logística de carga multimodal tem que assumir quando a capacidade começa a saturar. Assim, tecnologia te permite ter um serviço com mais alcance, mas onde a escala justifica eventualmente a infraestrutura tem de ser consolidada.
A outra consequência interessante é que enormes categorias de serviço que dependem da infraestrutura tradicional nunca chegam a ficar disponíveis ou ter a mesma adoção nos locais que usam soluções que pulam etapa. Um exemplos disso seria o PVR (gravador tipo Tivo de programa de TV) que completou uma década de sucesso nos países com mais TV cabeada e nem vai chegar a ser amplamente adotado aqui antes do streaming* tomar conta. Outro seria a secretária eletrônica, que, devido ao nosso atraso em telefonia, não chegou a se tornar tão comum no país e já foi rapidamente substituída pela bem mais conveniente mensagem de texto**.
Acredito que a manufatura personalizada** tem potencial para ser uma tecnologia de pular etapa. Em um recente artigo a Economist destacou as mudanças profundas na economia que essa tecnologia pode trazer. Fala em particular da importância crescente da prototipação mecânica com ferramentas como a impressão 3D.
Comentei a respeito desse tipo de tecnologia há algum tempo atrás aqui no blog.
(abril, 2012)
* Substitui a palavra para aumentar a clareza, na época ainda não se chamava serviços de TV via internet, que é como o artigo chamava, de streaming mas já era claro que iriam eventualmente substituir a TV a cabo.
** Esse artigo é de 2012, na época manufatura personalizada era o nome usado para tecnologias como impressão 3D e outras que permitem produção distribuída e customizada.
*** E, mais recentemente pela mensagem via Whatsapp e equivalentes.
Para ler mais [PT-EXT]