Atratividade nas carreiras tecnológicas
Recentemente li uma matéria muito legal na linha de "vamos incentivar pessoas a seguir carreiras em tecnologia".
O artigo é curioso porque nos EUA e UK o incentivo para carreiras cientifico tecnológicas já é feito, mas acham muito pouco pois mais gente quer ser artista que engenheiro. Ele cita como exemplo Natalie Portman, que quando jovem ganhou um prêmio "jovem cientista" da Intel antes de seguir carreira em artes cênicas.
É bom lembrar que isso é em um país onde há cinco vezes mais engenheiros per capita que no Brasil, e onde inventores como Bell, Edison e Tesla são heróis cantados em prosa e verso.
Na base da reclamação dele está o fato de a China ter um percentual maior de engenheiros e tecnólogos que os EUA. Tão maior a ponto de a maior parte das pessoas na alta administração federal chinesa ter alguma formação na área.
O autor, que é inventor e milionário devido a suas patentes, sugere que se deve combater a visão de fábricas como locais vitorianos, com fileiras de pessoas fazendo os mesmos trabalhos repetitivos.
Segundo ele fábricas modernas tem laboratórios e equipamentos avançados onde se resolve problemas tão interessantes ou mais do que o que se vê nas modernas series de TV que enfatizam as qualidades racionais, como CSI e mesmo House. De fato, ele cita CSI como um exemplo de influência que aumentou dramaticamente o interesse em uma profissão técnica.
Profissões técnicas são muito interessantes, basta ver o apelo de canais como o canal Discovery. Se há tanta gente que se interessa pelos assuntos técnicos, deveria haver mais gente interessada em carreiras tecnológicas. Seria só o caso de se promover mais essas profissões usando campanhas publicitárias e oferecendo prêmios?
Acredito, sinceramente que isso possa ajudar, mas também creio que há limites para o quanto se pode melhorar apenas com campanhas e incentivos.
É importante aqui fazer uma colocação: há uma razão para que pouca gente se interesse por uma carreira em tecnologia.
A razão é que as pessoas são pragmáticas. Têm de ser para sobreviver.
Se você gosta de algo mas sabe que não tem retorno financeiro isso no máximo se torna seu hobby, ou algo que tu assiste no Discovery Channel.
Nos EUA a inovação é mais valorizada pois é um lugar onde uma patente e uma inovação pode te tornar efetivamente milionário. É uma chance pequena, mas significativa. Assim, o sonho de ser inventor genial co-existe lado a lado com ser astro do esporte ou de cinema.
É quando você se pergunta se é possível viver durante o período em que se luta para alcançar o sonho que se toma a decisão de mudar de rumo ou não.
E é esse meu ponto: nos EUA seguir uma carreira em inovação tecnológica sempre foi um caminho viável para se progredir na vida. Nos dias atuais, em países como a Índia e a China, ter um filho ou filha engenheiros é muitas vezes o passaporte para uma família inteira sair da pobreza. Nesses países não há falta de pessoas querendo seguir carreiras tecnológicas.
Em lugares onde a carreira tecnológica é um caminho de sucesso visível para todos, não surpreende que quase a metade das pessoas que procura educação profissional opte por carreiras em tecnologia.
Isso já foi assim com o Japão, com a Alemanha... e com Estados Unidos. Acredito que grande parte desse desinteresse dos jovens desses países por profissões tecnológicas que hoje gera tanta preocupação se deva a questões objetivas. Dados de realidade.
Hoje, nos países ricos, quem ingressa no mercado de trabalho vê claras vantagens em investir em carreiras financeiras ao invés de tecnológicas. Ao mesmo tempo, a exportação das manufaturas para países asiáticos gerou uma maciça destruição da infraestrutura produtiva, reduzindo oportunidades de profissões de acesso nas áreas técnicas.
Ora, se o interesse em tecnologia não encontrar a oportunidade de se trabalhar desde cedo em áreas correlatas, muito mais gente vai optar por carreiras administrativas onde existem um caminho acessível: O grande financista e agente da bolsa podem iniciar sua carreira como estagiário de pequenos postos burocráticos.
Hoje, nos países ricos, apesar de ainda haver abundância de postos de trabalho técnico (o que os americanos chamam de áreas STEM - Science, Engineering, Techonology and Math), estes postos se concentram em áreas bem mais especializadas e avançadas.
O doutor engenheiro de projeto em área de desenvolvimento avançada muitas vezes iniciou sua carreira como técnico muito cedo em uma empresa de manufatura. Se não ha postos técnicos de entrada em número suficiente no país não haverá gente experiente em números suficientes.
Assim, não é de admirar que os postos mais avançados acabem importando pessoas de outros países, onde ainda existe uma carreira viável para quem quer começar desde a base. Países onde existe manufatura e empregos técnicos de acesso.
Em países onde a produção industrial não é relevante pessoas com talento matemático, técnico e científico irão escolher outros caminhos mesmo sabendo que há ótimos postos de trabalho para gente muito capacitada. E vão fazer isso não apenas porque não houve campanhas o bastante para concientiza-los disso mas porque precisam viver de algo até atingir esse nível de capacitação.
Carreiras Tecnológicas no Brasil
Mas como se explica o caso do Brasil, em que temos um percentual menor de engenheiros do que em países mais desprovidos de indústria, como a Bolívia? Faz sentido termos proporcionalmente menos engenheiros que a média mundial?
É triste, mas faz.
O autor do artigo do Huffington Post é inventor e milionário. Sabe do que está falando.
Mas as pessoas não reagem a realidade, elas reagem a realidade percebida. No Brasil a impressão é de que casos de sucesso financeiro devido a inovação tecnológica aqui não são poucos: são inexistentes.
De modo geral, musica popular, esportes e uma carreira publica são os únicos lugares na cultura popular em que é percebido o mérito técnico ter alguma influência, por mínima que seja, no futuro financeiro da pessoa. Curiosamente são três áreas sujeitas a profundo preconceito cultural, o que vale um outro texto.
Preparo técnico e esforço são essenciais para concurseiros, assim como persistência. Esforço, inventividade e persistência são o segredo do sucesso para cantores populares e desportistas.
Conexões, relações sociais e habilidades interpessoais são as coisas mais relevantes em uma carreira no setor privado. Capitalização, networking e novamente habilidades interpessoais são o necessário para o nosso empresário ser bem sucedido.
Se acreditarmos nas nossas revistas e TV, não há nicho visível para o nerd, o geek e o inventor maluco e eremita na cultura empresarial brasileira.
E isso é fato. Dos muitos indivíduos extremamente competentes tecnicamente que conheci ao longo dos anos pouquíssimos hoje trabalham em pequenas empresas brasileiras inovadoras.
Empresas de tecnologia no exterior, subsidiarias de grandes empresas tecnológicas no Brasil, concessionárias e empreiteiras ligadas ao setor publico, grandes empresas públicas, centros de pesquisa públicos, universidades e o próprio serviço publico não tecnológico são os principais empregadores dos nerds que conheci e com os quais estudei.
Todos, sem exceção, estão bem. Muitos apenas lamentam não poder ter seguido carreiras mais técnicas.
De fato, geek e nerd tem tão pouco espaço que nossa mídia chegou a redefinir as palavras para designar pessoas que, mesmo trabalhando em coisas completamente não tecnológicas, apenas gostam de gastar seu dinheiro em bugigangas de ultimo modelo. Um caso clássico de confundir a aparência com a essência.
Sim, segundo a mídia especializada não há espaço para nerds na cultura empresarial brasileira. Mas isso não significa que a inovação tecnológica não tenha importância.
Há grande número de empresas grandes que surgiram no Brasil graças a inovação tecnológica. É fato que elas apenas raramente mantém a tradição de inovação a medida em que se tornam empresas estabelecidas. A inovação as tira do zero, mas em algum lugar do caminho são obrigadas a lidar com a realidade brasileira de agentes financeiros que preferem negócios sem risco, regulações que evaporam vantagens competitivas e investidores e analistas que acham que ser empresário é ser ou um intermediário ou um prestador de serviços. Eventualmente, se sobrevivem, passam a ser mais uma empresa onde soluções politicas são apregoadas para problemas técnicos.
Isso é triste, mas tem mais a ver com nossa cultura empresarial, legislação e sistema financeiro do que com a ausência de oportunidades em carreiras de inovação tecnológica.
O brasileiro médio, ao olhar apenas o topo da pirâmide e ver os mesmos aristocratas de sempre, com seu natural desdém pelo mérito, sua visão míope de que tecnologia é algum tipo de coisa que se compra e sua ênfase em soluções politicas, perde de vista o essencial.
O que não se pode esquecer é que, sendo um país em intenso processo de construção, e com grandes desafios a enfrentar o Brasil é mais parecido com Índia e com China do que com os EUA. Há um grande número de oportunidades para quem tem boa formação em resolver problemas tecnológicos.
E vai continuar havendo oportunidades nos próximos cinquenta anos. E nos cinquenta depois...
Em um país onde tão poucos sabem resolver problemas minimamente complexos, quem sabe, nunca fica sem ter o que fazer.
O conhecimento valioso é a melhor estabilidade que se pode ter.