Muitas vezes vemos o peso que ainda tem na nossa forma de ver o mundo aquela noção de que as coisas que tem valor são aquelas que vêm da terra. As chamadas riquezas naturais. Essa visão não é nova: Dona Maria, a louca, na carta em que desautoriza manufaturas no Brasil dizia isso claramente e com todas as letras. Para ela, a indústria era uma perda de tempo já que o valor real estava nos bens que advinham da terra.
Quando vemos um ministro de ciência e tecnologia dizer que a Amazônia é uma grande fonte de riqueza biotecnológica vemos a persistência dessa visão "extrativista" do valor. Basta lembra que nos fatores que levam a descobertas em biotecnologia o conhecimento científico é o ator principal. Das plantas a se estudar é necessária uma minúscula quantidade.
Dizer isso é tão óbvio como lembrar que, em uma cidade como Pelotas, a principal riqueza é gente capacitada. Não é o arroz nem, muito menos, o gado.
O que muitos esquecem quando falam sobre desenvolvimento tecnológico é que o conhecimento mais valioso costuma surgir onde enfrentamos com sucesso grandes problemas.
Isso significa que da Amazônia eu esperaria soluções inovadoras em transporte fluvial e urbanização. Porque este é um problema que milhões de pessoas tem de resolver todos os dias: como viver em um mundo quase alienígena de floresta inundável. E como fazer isso sem destruir o ambiente.
Largar a visão medieval de valor nos dá a pista para muitas áreas onde temos grandes oportunidades. Áreas em que nunca se fala que o Brasil tenha vocação tecnológica.
Duas para mim são evidentes: saúde e vida urbana. Por isso falo tanto destas áreas.
Somos hoje um dos países mais urbanos do mundo. Mais gente vive nas cidades brasileiras, proporcionalmente a população total, do que nas americanas. O volume de problemas que isso nos leva a resolver é formidável.
Também temos uma das maiores redes de saúde pública do mundo. Rede que não apenas tem de atender uma tremenda variedade de demandas, incluindo doenças "negligenciadas", como tem de fazer isso com as severas dificuldades logísticas de um país continental.
São duas situações bastante características do país, que oferecem problemas muito grandes e que nos afetam diariamente.
Estimular a inovação nessas áreas pode nos render posição vantajosa em tecnologias que serão fundamentais no futuro quando os demais países estiverem enfrentando a mesma situação.
Isso já ocorreu com o famoso BRT (sistema de ônibus rápido) de Curitiba, hoje adotado em todo o mundo.
As vantagens oriundas dessas áreas podem ser tão grandes ou maiores que os pontos fortes da tecnologia brasileira que são habitualmente lembrados hoje em dia (biotecnologia, petróleo e gás, biocombustíveis, energia renovável).
Não é uma questão de afirmar que as áreas sempre lembradas não sejam importantes, mas apenas de lembrar que nem Embraer, nem Petrobrás, foram criadas porque eram em setores onde era notória a abundância de recursos naturais do país.
Nossas grandes iniciativas tecnológicas surgiram justamente nos setores onde havia grandes problemas para resolver.
Nesta palestra, Antony Townsend do Institute For The Future fala exatamente disso para empresários brasileiros. Ele reclama da falta de startups e empreendedores na audiência e lembra que grandes problemas são justamente onde surge a grande inovação.
A visão que ele esboça, de que o espaço para a inovação futura reside justamente na intersecção entre os problemas da vida urbana e saúde com as oportunidades trazidas pela computação onipresente, é uma noção da qual compartilho fortemente.
Para ler mais:
A inovação como um culto a carga