Segundo o professor Edward Gleisser em seu livro Triumph of The City, cidades se estruturam e constroem de forma determinante pela maneira como as pessoas se transportam. Assim, algumas cidades são densas e verticais como Nova Iorque, totalmente estruturadas em cima de elevadores e metrô. São, de modo geral, cidades onde pessoas vivem em apartamentos e as compras são feitas na rua, em belas lojas tradicionais e calçadões. Nessas cidades os metrôs são extensos, APMs (Automatic People Mover), tramway (nosso velho bonde) e calçadas rolantes são comuns e os prédios são altos. Muito altos. É possível ser adulto sem saber dirigir em cidades como Vancouver ou Nova Iorque.
Outras cidades se espalham por uma vasta área de prédios não muito altos com pessoas vivendo em subúrbios e se deslocando principalmente de carro. Nessas cidades (como Los Angeles) autopistas, elevadas e garagens publicas são fundamentais, os deslocamentos são quase todos feitos em carros ou veículos dedicados (ônibus da empresa, ônibus escolar). Nelas também, os centros abertos e ricos em comercio foram substituídos por vários concentradores comerciais fechados, localizados próximos aos grandes bairros e com estacionamento. Esses concentradores são o que chamamos de Shopping Centers (e os americanos chamam de Shopping Mall).
A escolha de um modelo ou de outro traz consequências: Se queremos um transporte predominantemente baseado em metrô, temos que pensar em uma cidade de área mais compacta, ou formada por um conjunto de núcleos compactos e densos. Se queremos uma cidade onde todos moram em casas no subúrbio precisamos de autoestradas e garagens públicas.
Apostar em espalhamento urbano e depois dificultar o veiculo individual com a desculpa de que se quer privilegiar o coletivo, é uma contradição em termos. E, se levado a sério, uma farsa. Uma cidade espalhada nunca vai viabilizar transporte coletivo de qualidade. A conta não fecha. O que fazemos é, na verdade jogar para os cantos, sem pensar a população que trabalha, sem lhe dar qualquer alternativa decente de locomoção.
Como cidades não são planejadas tudo o que se pode fazer é incentivar um modelo ou outro com políticas que privilegiem a densidade ou o espalhamento. O efeito dessas políticas é bastante rápido e, em parte, isso pode ser visto nas trajetórias divergentes em termos da urbanização de Pelotas e da região metropolitana de Porto Alegre.
O primeiro passo quando se pensa em transporte é se pensar naquilo que não se move: onde estão os prédios, casas e trabalhos de todos.
(maio, 2015)
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