Uma versão desse texto foi originalmente publicado no Amigos de Pelotas em 2011, creio que o título foi modificado para algo como "Possibilidades de Pelotas." Essa versão é posterior e datada de dezembro de 2011]
É fim de ano, e como todo fim de ano se pensa no que de mais relevante se passou e no que se espera para o futuro.
Pois bem, no ano de 2011 chegamos a sete bilhões de habitantes na Terra. Os oito bilhões chegarão em algum momento antes que mais quatorze anos se passem.
Seja lá quem for o bebê oito bilhões ele muito provavelmente será um residente urbano. È provável ainda que esteja vivendo em uma das grandes cidades que hoje ainda são cidades de médio porte: As cidades do próximo bilhão.
A importância das cidades médias para o futuro do Brasil é tamanha que, na semana em que se atingiu a marca dos sete bilhões, a revista Veja dedicou um especial a todas nossas cidades com mais de duzentos mil habitantes do país e suas vocações.
Essa reportagem fala de municípios que se tornaram centros educacionais e tecnológicos, de municípios que se tornaram centros de serviço de saúde e de outros que investiram no turismo. Fala, enfim, das estratégias de futuro dessas cidades para lidar com os desafios das próximas duas décadas.
A reportagem cita Pelotas em um parágrafo onde se fala simplesmente que Pelotas foi conhecida pelas Charqueadas e agora investe no Pólo Naval* tendo aberto dez cursos de Engenharia nos últimos três anos.
Esse salto brusco das Charqueadas para o Pólo Naval que me deu a incrível impressão de que a cidade nada fez desde o século XIX. Só que isso não é verdade!
Mesmo porque uma cidade do porte de Pelotas não consegue viver de renda por um século.
Mas não podemos culpar a revista, pois essa é uma crença generalizada aqui. Se perguntarmos na rua o que é a principal atividade da cidade a resposta não vai ser muito diferente disso: antes eram as charqueadas, hoje é o agronegócio.
Nada poderia ser mais falso. O gráfico que ilustra essa matéria é do IBGE.
de andar pela periferia. É da periferia que vêm boa parte dos médicos, técnicos, engenheiros e outros profissionais que Pelotas exporta. E é isso que mantém nosso pólo de serviços.
Se a cara da cidade não mudou é porque continua influindo desproporcionalmente na política quem pouco contribui com a cadeia produtiva.
Sendo professor de engenharia e de cursos técnicos e tecnológicos vejo para onde vão nossos alunos quando formados e posso dizer em seis anos teremos uma inundação de profissionais competentes em áreas onde o país todo tem carências.
É essa capacidade de trabalho o verdadeiro tesouro da região e não a tão propalada maior poupança do país. Até porque, se essa poupança realmente existe, é totalmente imobilizada.
É o trabalho, e não a renda e a propriedade imóvel que tem mantido Pelotas há um século.
Então, para mim esse final do ano dos sete bilhões coloca uma questão clara: vamos abrir a cidade para o investimento e transformar nossa capacidade de trabalho em riqueza, ou vamos continuar acreditando que nossa elite rentista é capaz e está disposta a fazê-lo.
Falta pouco mais de uma década para o mundo dos oito bilhões com todos seus novos problemas. Se a cidade continuar a se iludir e achar que é a mesma de mais de um século atrás, dificilmente verá as soluções que vai precisar colocar em prática.
(dezembro, 2011)