Estava lendo sobre "ilusão de profundidade explanatória', que é o fenômeno segundo o qual o enquadramento de uma pergunta pode te fazer ter a falsa noção de que entende profundamente o assunto.
Achei muito curioso como isso me lembrou uma passagem do Feynman (o famoso físico e prêmio Nobel) quando lecionou no Brasil por um ano na década de cinquenta e ficou muito chocado com o sistema de ensino que encontrou aqui.
Em uma parte, quando fala a autoridades brasileiras sobre o que ele achou da experiência, ele faz uma analogia imaginando um erudito grego que ama a língua grega e fica muito feliz quando vai a um país em que vê muitas crianças pequenas com livros sobre grego (não se tentava ensinar física tão cedo nos EUA quanto aqui, daí a analogia). Então o erudito pergunta a um desses estudantes o que Sócrates disse sobre a relação entre a verdade e a beleza e o estudante não tem a menor idéia do que ele está falando. Mas se ele pergunta ao mesmo estudante o que Sócrates falou a Platão no Terceiro Simpósio (ou seja o que ele pensa sobre a relação entre a verdade e a beleza) ele responde em detalhes:
"O que esse erudito grego descobre é que os estudantes em outro país aprendem grego aprendendo primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras gregas realmente significam algo."
Ele conclui: "É assim que me parece quando vejo os senhores ensinarem ‘ciência’ para as crianças aqui no Brasil". Fico imaginando a cara da audiência repleta de autoridades...
O texto do Feynman fala de outras coisas também, como quando estudantes não anotavam nada em sua aula porque era matéria muito simples que já dominavam (e continuavam não conseguindo fazer as tarefas propostas, embora argumentassem que não precisavam), e sobre a pressão entre pares para que não se fizesse perguntas porque isso atrapalhava o ritmo da aula. Vale a pena ler.
O resultado de tudo isso é uma ilusão bastante poderosa pois o professor dá aulas e faz provas e os alunos estudam e passam nelas. Parece tudo bem... Mas não está. O texto também é interessante porque mostra que nosso sistema de ensino tem falhas gigantes há tempos. E nós, professores, fomos ensinados nesse sistema falho. O papo de que era bom no passado é um mito que não nos faz nenhum favor. No final, para o professor interessado, é um enorme desafio se escapar desse tipo de armadilha, onde se pensa estar ensinando e os alunos juram estar aprendendo.
É difícil porque não se trata de fingimento, e sim de auto ilusão.
Quando o Feynman esteve no Brasil o país estava buscando a independência atômica. Então, evidentemente, o Departamento de Estado americano o entrevistou na volta para saber o que achava do nosso avanço em física. Ele respondeu. Mais tarde, soube que os agentes do governo americano acharam que ele era muito ingênuo por ter tido essa impressão. Ao fim da crônica ele comenta que, ao contrário, esse agente é que "era ingênuo em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de cursos e descrições, era realmente isso".
Nesses tempos de expansão da rede sempre procuro lembrar que Ciência (e tecnologia) é importante, porque funciona e é poderosa. Não porque os outros também estão estudando. Se não funciona não é ciência. É "culto a carga" (cargo cult): tem tudo da forma mas nada da essência.
Lembremos que não é porque o governo decretou e agora temos uma lista de prédios e universidades e institutos, com cursos e descrições, que devamos nos iludir e achar que isso seja necessariamente "de verdade".